Itinerário intelectual rumo à vocação presbiteral

Seminarista Messias Maciel Romão.


Venho por meio - deste artigo - ilustrar o processo do vocacionado quando entra no Seminário para tornar-se um ministro ordenado, ou seja, um Padre. Nesta caminhada de seminarista o documento da CNBB: Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil detalha como procede a preparação rumo à vocação presbiteral. No itinerário formativo, o seminário maior ou a casa de formação constituem uma etapa do discipulado, da caminhada no deserto e da formação específica. Destinam-se a realizar o processo de aprendizagem da vida de presbítero num novo contexto global de discípulo e missionário de Jesus Cristo. O documento trabalha cinco dimensões: humano-afetiva; comunitária; espiritual; intelectual e pastoral-missionária. Sendo assim, o seminário é, portanto, uma experiência educativa rica e complexa, com exigências diversas que precisam de um esforço sério para serem integradas e equilibradas. Neste artigo me deterei a DIMENSÃO INTELECTUAL.

Frequentemente ouvimos dizer que o Seminário é um lugar somente de oração, pensando nesta constatação, resolvi esmiuçar que além de orar, nós estudamos e muito, pois a vida intelectual é uma das dimensões pessoais que o próprio seminarista deve cultivar perenemente. Segundo São João Maria Escrivá: “Para um apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração”.

Na caminhada que precede a ordenação, o vocacionado faz o então chamado, Encontro-vocacional, que perdura por cerca de um ano, realizado em todo primeiro domingo do mês – no Seminário Maior Nossa Senhora do Desterro - em Jundiaí. Após o término deste percurso o candidato, se for aceito, entra no Seminário Menor, denominado Propedêutico (aquilo que vem antes) e a partir daí começa a ser chamado de seminarista (advém da palavra sêmen, semente, no caso germina uma autêntica vocação). Esse período é “tempo de preparação humana, cristã, intelectual e espiritual para os candidatos ao seminário maior” (PDV, n. 66).

Depois ingressa no Seminário Maior aonde faz três anos do curso de Filosofia que ajuda o seminarista, a saber ‘pensar’ de maneira lógica e racional. Afinal, a fé que professamos não é fruto de devaneios, superstições; e sim de algo que experimentamos de maneira racional, experiencial, emocional e concreta. Tanto é que a carta Encíclica Fides et Ratio definiu ciência e fé como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Por isso, deve-se haver um liame entre a fé e outras ciências do saber, posto que, segundo o Catecismo da Igreja Católica: “Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não poderia negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer a verdade”.

Todavia, tendo em vista que a Filosofia é limitada porque é racional, convém ultrapassar tais limites e isso se perfaz no estudo da Teologia (estudo sobre Deus), isto é, um estudo acurado sobre Deus, atrelado pela fé e a razão. Tais estudos têm o intuito de ajudar e formar o seminarista para confrontar o mundo atual no que tange o anúncio do Reino de Deus, isto é, a transmissão da fé. Aliás, no término do estudo teológico o aluno realiza uma avaliação final denominada Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Donde escolhe um Tema e desenvolve sua argumentação para demonstrar com argumentos filosóficos e, sobretudo teológicos, sua defesa. No meu caso, o tema escolhido foi: Teologia e confissão da fé cristã no mundo atual. O tema visa investigar os desafios para a transmissão da fé no mundo atual e a derrocada do homem (criatura) enquanto se afasta do Deus (Criador). Tecerei um pouco o núcleo do tema escolhido.

A Igreja Católica, preocupada com o afastamento da criatura com seu Criador, têm proposto estudos, documentos e pronunciamentos profícuos para analisar a relação do homem com o sagrado. No decorrer de sua história, a Igreja procurou dar respostas às necessidades espirituais do homem em cada tempo. Mas foi no Concílio Vaticano II que ela realmente se propôs a fazer um verdadeiro aggiornamento, uma atualização da Igreja para um diálogo mais profundo com a humanidade. Esta palavra foi à orientação chave dada como objetivo para o Concílio, em 1962, convocado pelo Papa São João XXIII. O Concílio ocupou grande parte de seu tempo na reflexão sobre a identidade e a missão da Igreja, bem como no cuidado de situá-la no contexto do mundo atual. Ele inaugurou uma nova etapa da Igreja e de sua relação com o mundo.

A Igreja se entregou a esse ato perante o mundo inteiro, com a intenção de assumir as provocações da história, buscando na fé novas palavras, adaptadas à sua vocação de melhor exprimir e para melhor fazer-se ouvir. No mundo atual, muitas coisas mudaram, especialmente no que tange à concepção do homem e da sociedade.
O papel da Teologia é um pressuposto para um diálogo com o “homem pós-moderno”. Aliás, a Teologia, diferente do que pensam alguns, não trata somente de coisas do passado. Segundo o documento Gaudium et Spes: “Ela dialoga e questiona o homem do nosso tempo, com suas alegrias e tristezas, esperanças e angústias, que ela, no seio da Igreja, não pode deixar de fazer igualmente suas”. À Teologia cabe a tarefa de retirar do tesouro da Sagrada Escritura, do Magistério, da Tradição as coisas velhas e novas; cabe-lhe também um olhar responsável e atento sobre o mundo dos homens. Sendo assim, seguindo o espírito conciliar, cabe à Teologia ser cada vez mais aberta aos sinais dos tempos, cuja tarefa primordial consiste em anunciar a salvação a partir de Jesus Cristo, procurando amiúde novas formas e linguagens para que o homem contemporâneo possa aceder à Boa Nova da salvação.

Deste modo, sejamos “Uma Igreja em saída” segundo pede o querido Papa Francisco. Afinal, a Igreja não deve ser um lugar de refúgio contra a perversidade do mundo, mas o lugar onde se encontram Deus e o homem plenamente engajado no mundo. O compromisso do cristão se realiza no mundo, e o Evangelho tem algo a dizer ao homem engajado no mundo. É na autenticidade duma Igreja que existe para os outros e que vive da fé, que se encontra a melhor garantia de sua sobrevivência no mundo atual.