As diferenças e os diferentes

Diácono José Carlos Pascoal
Paróquia São Benedito de Salto, Diocese de Jundiaí, SP.

A liturgia da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos me leva a refletir sobre as diferenças e os diferentes. Em refletir sobre as “contradições” (segundo o pensamento humano) de Deus e do próprio Jesus. Em refletir sobre o chamado de Deus e suas consequências em nossa vida.

Costumamos ouvir e dizer esta frase: “Deus não chama os capacitados, capacita os chamados”. Isso não quer dizer que Deus não chama os letrados, estudados, sábios. Na verdade, chama a todos, indistintamente. É que a resposta, na maioria das vezes é dada pelos mais simples, humildes.

Chama o desconhecido Abraão para ser o “pai de todos os Povos” (Gn 12,1-3). “Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber em herança” (Hb 11,8). Chama o tímido Moisés para libertar o povo escolhido da escravidão do Egito (Ex 3,1-22). Escolhe Davi, não por beleza física, mas por sua capacidade de pastor (1Sam, 12-13), capaz de unir os dispersos de Israel, unir os reinos do Norte e do Sul.

Jesus escolhe os Doze após uma noite de oração (Mt 10,1-4), mas vai chamando e formando (chamado) e capacitando (envio) conforme as circunstâncias. Simão Pedro e André, Tiago e João junto ao mar (Mt 4,18-22); Levi/Mateus na banca de arrecadação de impostos (Mc 3,13-14); Filipe é chamado e indica Natanael/Bartolomeu, e assim vai completando sua pequena comunidade.

Pedro e Paulo eram diferentes e expunham suas diferenças. Pedro tinha a capacidade de liderança (não era só pescador, mas liderava um grupo de pescadores). Era muito dedicado ao seu trabalho e, com certeza, frequentava o templo assiduamente. Não era “letrado”, mas a vida e as lides lhe ensinaram tudo o que precisava. Paulo, fabricante de tendas, era inteligente, obstinado em cumprir a Lei, perseguidor dos cristãos, com facilidade de palavras. Enfim, aparentemente o oposto de Pedro. Tinham suas divergências, resolvidas em diálogo. O Concílio de Jerusalém selou tudo, pois ambos tinham a disposição e a missão de anunciar o Cristo Ressuscitado a todos os povos.

Pedro e Paulo tinham muita coisa em comum. A principal delas: o amor imensurável e incondicional a Jesus; o desejo de cumprir a escolha, o mandato e o envio até com a própria vida. Tinham em comum a obediência à Palavra, ao Mestre de Nazaré. Embora diferente e com diferenças, sabiam da missão dada pelo Mestre Jesus e cumpriram à risca. Por que Pedro como líder e não Paulo? Justamente, pela capacidade de liderança, pelo testemunho: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”! (Mt 16,16). Por ter deixado tudo para seguir Jesus, por ser o primeiro sempre em tudo. Pedro liderando, e Paulo percorrendo o mundo de então anunciando, formando comunidades, atraindo pagãos ao cristianismo.

Por fim, a oração em comum pelo líder da Igreja. Pedro estava preso por ordem de Herodes, acorrentado e vigiado por muitos guardas, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus. E Deus o libertou através do anjo. Pedro o papa, nos remete a Francisco, o papa. Francisco é admirado por cristãos e não cristãos em todo o mundo. É admirado no mundo político, no campo social e, principalmente no campo religioso. Mas, é importante e cada vez mais necessário rezar pelo papa. Ele não é compreendido por alguns bispos, presbíteros, diáconos, religiosos e leigos por sua simplicidade, por querer uma Igreja pobre para os pobres, por querer uma Igreja em saída, em constante missão, em lutar contra os exageros de dentro da Igreja, como o da opção pelo luxo e pelas construções, pelos paramentos vistosos e pela apatia de muitos clérigos em relação à ação social da Igreja que, a partir da Igreja latino-americana faz a opção preferencial pelos pobres. Rezemos sem cessar pelo Sumo Pontífice Francisco, enviado por Deus no momento em que a Igreja e o mundo mais precisam da graça de Deus e do testemunho.